"Em tempos de tempestade, orar, vigiar e estudar são os
melhores remédios..."
Procuremos, agora, ilustrar, entre os defeitos que mais
comumente manifestam-se em nós, o orgulho e a vaidade. Busquemos tranqüilamente
conhecê-los, tão profundamente quanto possível, sem mascarar os seus impulsos
dentro de nós mesmos. Entendamos que a tolerância começa de nós para nós
mesmos. Assim, o nosso trabalho de prospecção interior é suave, e não podemos
nos maldizer ou nos martirizar pelos defeitos que ainda temos. Vamos, então,
trazer aos níveis de nossa consciência aquelas manifestações impulsivas que nos
dominam de certo modo, e que, progressivamente, desejamos controlar.
Vejamos, então, como identificar em nós o orgulho e a vaidade.
Orgulho
"Aquele que encontra a felicidade senão na satisfação do orgulho e dos
apetites grosseiros é infeliz quando os pode satisfazer, enquanto que aquele
que se interessa pelo supérfluo se sente feliz com aquilo que, para os outros,
constituiria infortúnio." (Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Livro Quarto. Capítulo 1. Penas e
Gozos Terrenos. Parte dos comentários à resposta da pergunta 933.).
"O orgulho vos induz a julgardes mais do que sois, a não aceitar uma
comparação que vos possa rebaixar, e a vos considerardes, ao contrário, tão
acima dos vossos irmãos, quer em espírito, quer em posição social, quer mesmo
em vantagens pessoais, que o menor paralelo vos irrita e aborrece. E o que
acontece, então? Entregai-vos à cólera." (Allan Kardec. O Evangelho Segundo Q Espiritismo. Capítulo IX.
Bem-aventurados os Brandos e Pacíficos. A Cólera.).
As principais reações e características do tipo predominantemente orgulhoso
são:
1. Amor-próprio muito acentuado: contraria-se por pequenos motivos;
2. Reage explosivarnente a quaisquer observações ou críticas de outrem em
relação ao seu comportamento;
3. Necessita ser o centro de atenções e fazer prevalecer sempre as suas
próprias idéias;
4. Não aceita a possibilidade de seus erros, mantendo-se num estado de
consciência fechado ao diálogo construtivo;
5. Menospreza as idéias do próximo;
6. Ao ser elogiado por quaisquer motivos, enche-se de uma satisfação
presunçosa, como que se reafirmando na sua importância pessoal;
7. Preocupa-se muito com a sua aparência exterior, seus gestos são
estudados, dá demasiada importância à sua posição social e ao prestígio
pessoal;
8. Acha que todos os seus circundantes (familiares e amigos) devem girar
em torno de si;
9. Não admite se humilhar diante de ninguém, achando essa atitude um
traço de fraqueza e falta de personalidade;
10. Usa da ironia e do deboche para com o próximo nas ocasiões de
contendas.
Compreendemos que o orgulhoso vive numa atmosfera ilusória, de destaque social
ou intelectual, criando, assim, barreiras muito densas para penetrar na
realidade do seu próprio interior. Na maioria dos casos o orgulho é um mecanismo
de defesa para encobrir algum aspecto não aceito de ordem familiar, limitações
da sua formação escolar-educacional, ou mesmo o resultado do seu próprio
posicionamento diante da sociedade da imagem que escolheu para si mesmo, do
papel que deseja desempenhar na vida de "status".
E preferível nos olharmos de frente, corajosamente, e lutar por nossa melhora,
não naquilo que a sociedade estabeleceu, dentro dos limites transitórios dos
bens materiais, mas nas aquisições interiores: os tesouros eternos que "a
traça não come nem a ferrugem corrói! ".
Vaidade
"O homem, pois, em grande número de casos,é o causador de seus próprios
infortúnios; mas, em vez de reconhecê-lo, acha mais simples, menos humilhante
para a sua vaidade, acusar a sorte, a Providência, a má fortuna, a má estrela,
ao passo que a má estrela é apenas a sua incúria." (Allan Kardec. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo V. Bem-aventurados
os Aflitos. Causas Atuais das Aflições.)
A vaidade é decorrente do orgulho, e dele anda próxima. Destacamos adiante as
suas facetas mais comuns:
1. Apresentação pessoal exuberante (no vestir, nos adornos usados, nos gestos
afetados, no falai demasiado);
2. Evidência de qualidades intelectuais, não poupando referências à
própria pessoa, ou a algo que realiza;
3. Esforço em realçar dotes físicos, culturais ou sociais com notória
antipatia provocada aos demais;
4. Intolerância para com aqueles cuja condição social ou intelectual é
mais humilde, não evitando a eles referências desairosas;
5. Aspiração a cargos ou posições de destaque que acentuem as referências
respeitosas ou elogiosas à sua pessoa;
6. Não reconhecimento de sua própria culpabilidade nas situações de
descontentamento diante de infortúnios por que passa;
7. Obstrução mental na capacidade de se auto-analisar, não aceitando suas
possíveis falhas ou erros, culpando vagamente a sorte, a infelicidade
imerecida, o azar.
A vaidade, sorrateiramente, está quase sempre presente dentro de nós. Dela os
espíritos inferiores se servem para abrir caminhos às perturbações entre os
próprios amigos e familiares. É muito sutil a manifestação da vaidade no nosso
íntimo e não é pequeno o esforço que devemos desenvolver na vigilância, para
não sermos vítimas daquelas influências que encontram apoio nesse nosso
defeito. De alguma forma e de variada intensidade, contamos todos com uma
parcela de vaidade, que pode estar se manifestando nas nossas motivações de
algo a realizar, o que é certamente válido, até certo ponto. O perigo, no
entanto, reside nos excessos e no desconhecimento das fronteiras entre os
impulsos de idealismo, por amor a uma causa nobre, e os ímpetos de destaque
pessoal, característicos da vaidade.
A vaidade, nas suas formas de apresentação, quer pela postura física, gestos
estudados, retórica no falar, atitudes intempestivas, reações arrogantes,
reflete, quase sempre, uma deformação de colocação do indivíduo, face aos
valores pessoais que a sociedade estabeleceu. Isto é, a aparência, os gestos, o
palavreado, quanto mais artificiais e exuberantes, mais chamam a atenção, e
isso agrada o intérprete, satisfaz a sua necessidade pessoal de ser observado,
comentado, "badalado". No íntimo, o protagonista reflete, naquela
aparência toda, grande insegurança e acentuada carência de afeto que nele residem,
oriundas de muitos fatores desencadeados na infância e na adolescência.
Fixações de imagens que, quando criança, identificou em algumas pessoas
aparentemente felizes, bem sucedidas, comentadas, admiradas, cujos gestos e
maneiras de apresentação foram tomados como modelo a seguir.
O vaidoso o é, muitas vezes, sem perceber, e vive desempenhando um personagem
que escolheu. No seu íntimo é sempre bem diferente daquele que aparenta, e, de
alguma forma, essa dualidade lhe causa conflitos, pois sofre com tudo isso,
sente necessidade de encontrar-se a si mesmo, embora às vezes sem saber como.
O mais prejudicial nisso tudo é que as fixações mentais nos personagens
selecionados podem estabelecer e conduzir a enormes bloqueios do sentimento,
levando as criaturas a assumirem um caráter endurecido, insensível, de atitudes
frias e grosseiras. O Aprendiz do Evangelho terá aí um extraordinário campo de
reflexão, de análise tranqüila, para aprofundar-se até as raízes que geraram
aquelas deformações, ao mesmo tempo que precisa identificar suas
características autênticas, o seu verdadeiro modo de ser, para então despir a
roupagem teatral que utilizava e colocarse amadurecidamente, assumindo todo o
seu íntimo, com disposição de melhorar sempre.
Fonte: Ney Prieto Peres, Blog do CELE, Facebook: Pensamentos de André Luiz